12/07/2010

The closet scene...

[...ou os efeitos permanentes que um tremendo clássico provocam.]



Durante aproximadamente 90 minutos, um pequeno grupo de cinéfilos de Ponta Delgada assistiu, ontem à noite, à exibição de O LÍRIO QUEBRADO, uma das obras seminais da influente carreira de David Wark Griffith.

Para além da observação dos avanços técnicos de Griffith para aquilo que hoje em dia conhecemos como "gramática do Cinema" (nomeadamente, os primeiros usos de grandes planos, travellings e flashbacks), O LÍRIO QUEBRADO possui a fabulosa interpretação de Lillian Gish — a primeira grande actriz da Sétima Arte? — que, quase 100 anos depois, não perdeu nenhuma da sua intensidade emocional.

Este facto é consubstanciado na famosa "cena do armário". Aqui, Gish representa o horror de uma rapariga (Lucy) que se contorce num espaço claustrofóbico, qual animal torturado consciente de que não existe fuga possível.



Tão ou mais interessante quanto a sequência em si, são as histórias em torno da sua rodagem. Sobre a mesma, Richard Schickel recordou:

«É desoladora e, ao mesmo tempo, avassalada pelo talento da actriz. Aparentemente, a sua histeria foi exacerbada pelos insultos que Griffith lhe lançou antes de pôr a câmara a rodar. Gish, por seu lado, afirma que os movimentos da criança torturada foram improvisados no momento e que, quando terminou a cena, toda a gente no estúdio ficou em silêncio, apenas quebrado pela exclamação de Griffith: "Meu Deus! Por que não me avistaste que ias fazer isso?!» (em D.W. Griffith: an American Film Life)

Só podemos agradecer aos "deuses" do Cinema que O LÍRIO QUEBRADO seja um filme mudo. Pois os gritos que Gish vociferou durante a filmagem da "cena do armário" atraíram dezenas de transeuntes fora do estúdio, convencidos de que alguém estava mesmo em perigo, forçando os funcionários da United Artists ao trabalho de impedirem que fosse invadido por aterrados curiosos.

São pormenores destes que originam filmes únicos, os quais, hoje em dia, só conseguem ser devidamente apreciados em ambientes cineclubistas. E o presente ciclo História do Cinema promete mais momentos assim...

Samuel Andrade

5 comentários:

Vitor Marques disse...

Excelente entrada.

Sam disse...

Obrigado Vitor!

joão disse...

Excelente, na verdade! Mas um filme destes provoca comentários inspirados.

Sam disse...

É verdade, trata-se de uma obra extremamente inspiradora.

joão disse...

Já agora, quais são os próximos filmes que o cineclube vai passar?


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