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11/07/2011

SESSÃO 117

FANTASIA LUSITANA (2010), de João Canijo


FANTASIA LUSITANA é um documentário que explora a relação do povo português com os estrangeiros refugiados da II Guerra Mundial, a forma como a sua estadia no nosso país influenciou (ou não) o nosso olhar sobre a guerra, e uma procura pela herança cultural deixada (ou não) pela sua passagem.

Uma leitura interpelante da história portuguesa do século XX construída inteiramente a partir de imagens de arquivo e da leitura de testemunhos desses refugiados nas vozes de Hanna Schygulla, Rudiger Vogler e Christian Patey.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

10/11/2011

SANGUE DO MEU SANGUE — O Dia Seguinte



Amores condenados, ego sádico no espírito de pequenos criminosos, disparidades familiares e a "puta de vida" da classe média-baixa em toda a sua rotina e todo o seu sofrimento confluem neste drama que consolida João Canijo como um formidável inovador na observação de hábitos e costumes lusos e, sem dúvida, o melhor contador de histórias no feminino do panorama nacional.



Sem expor um argumento inteiramente original (há muito de, por exemplo, Pedro Almodóvar e Mike Leigh na narrativa de SANGUE DO MEU SANGUE) nem desejando formular qualquer tipo de denúncia económico-social, Canijo aposta no realismo de cenários e personagens inserido na artificialidade de minuciosos planos-sequência e num espantoso trabalho de sonoplastia que, muitas vezes, apresenta ao espectador três situações — naquilo que não resisto em apelidar de "tridimensionalidade de som" — a decorrer, em simultâneo, na mesma meia dúzia de metros quadrados.

Este é o grande ponto forte de SANGUE DO MEU SANGUE. A colocação de diversas acções principais num segundo plano visual e sonoro está longe de se afigurar como mero exercício de estilo; avisa-nos, isso sim, dos segredos escondidos à superfície desta realidade que o argumento se encarregará de revelar. E, logo descobertos, a mise-en-scène transfigura-se completamente: de súbito, multiplicam-se os close-ups e as cenas filmadas com câmara ao ombro até à precipitação dos dois dramas cimeiros de SANGUE DO MEU SANGUE, ou para a semi-tragédia ou na opção pela manutenção de uma qualidade de vida que, embora arredada do ideal, não se deseja pior.



SANGUE DO MEU SANGUE pertence, brilhante e irremediavelmente, às suas actrizes: impecáveis Rita Blanco (numa versão emancipada da sua Margarida Lopes na série televisiva CONTA-ME COMO FOI), Anabela Moreira e Cleia Almeida, sem temor do reconhecimento de culpa nem da humilhação perante um elenco masculino muito eficaz na composição de homens com "h" pequeno...

É o melhor filme português estreado em 2011 — e pelo contexto temporal, dificilmente será destronado de tal estatuto. Se é "obra-prima" ou "o filme que reconciliará o público português com o o seu Cinema", só o tempo o dirá. Mas, pessoalmente, espero que o veredicto seja positivo. Obrigatório.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

6/28/2011

VIAGEM A PORTUGAL — O Dia Seguinte



O recurso a opções estéticas que procuram subverter as regras básicas do cinema de ficção advém, maioritariamente, da ânsia de um cineasta salientar temáticas e ideias que, à superfície, não estão imediatamente expostos. E tal vontade pode resultar numa mesma quota-parte de fascinante ou de perigoso para o sucesso artístico de um filme.

VIAGEM A PORTUGAL será, provavelmente, o exemplo mais recente que vi onde essa dicotomia, acima explanada mais a partir de uma visão pessoal do que de "cânones cinematográficos" (pois o que nos parece belo é sempre abstracto), manifesta-se de forma decisiva. Desde já, confesso-me admirador do magistral trabalho formal adoptado por Sérgio Tréfaut para a concepção da sua primeira longa-metragem de ficção: mise-en-scène dominada por um frio e implacável preto e branco que nem ao cinzento concede espaço, montagem elíptica, direcção artística minimalista e sonoplastia metafórica.



O problema está na pertinência desse exercício de estilo para a história que ilustra, a saber o sofrimento de uma ucraniana (Maria de Medeiros) que, pouco depois de aterrar em Faro vinda de Kiev de modo a reencontrar-se com o marido senegalês (Makena Diop), vê a sua entrada no país barrada pelo "sistema" português de Estrangeiros e Fronteiras, aqui encarnado por Isabel Ruth. Embora aceite o raciocínio — exposto por alguns dos meus amigos e colegas do 9500 Cineclube — de que um despojamento de imagem, tempo e espaço impossibilita o espectador de não se concentrar no conflito que se desenrola perante os nossos olhos, também é-me impossível deixar de salientar que esse mesmo aparato estético, apenas derivado de um "capricho" do realizador (ou «um jogo», como o próprio Tréfaut lhe chamou), revela-se totalmente inapropriado face ao drama estabelecido.

A narrativa, inspirada em factos verídicos, está tão infundida de artificialismos técnicos que a potencial denúncia de intolerância burocrática ou apelo a uma globalização mais humana não encontram qualquer ressonância emocional no espectador. Bem pelo contrário, ostenta o arriscado "condão" de distrair, desinteressar e até impacientar quem vê VIAGEM A PORTUGAL: o seu argumento invoca instantaneamente uma moral — para mais, os percursos e destinos finais do casal, cujas experiências reais o filme decalca, são divulgados por extenso no final — e teria muito a ganhar com uma abordagem formal realista/naturalista dos factos.



Cabe, portanto, a Maria de Medeiros e, sobretudo, Isabel Ruth, austera e imperturbável num papel que só ela conseguiria assumir com segurança e brilho, garantir o pouco "calor" proporcionado por VIAGEM A PORTUGAL, obra com pouca densidade narrativa para uma estética tão profunda ou (o que, se virmos bem, não é a mesma coisa) um magnífico exercício de estilo encaixado num argumento insípido.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

6/20/2011

CICLO ESPECIAL: MANUEL MOZOS — O Dia Seguinte

A ficção de Manuel Mozos possui sempre uma atenção particular ao passado das personagens com o prenúncio de um futuro melhor (não é a esperança uma das promessas básicas da Sétima Arte?), através de histórias emotivas e melancólicas que nunca resvalam em excessos de pesar nem de lacrimejar — não obstante o facto de, pelo menos num dos filmes exibidos durante esta retrospectiva, haver quem não escondesse as lágrimas no final...

Totalmente humanistas, repletos de gente simples com trato simples e onde um certo sentido de "portugalidade" é quase palpável, ...QUANDO TROVEJA (1999) e XAVIER (1992) são um sério modelo para quem anseia fazer cinema no nosso país: ambos permitem o célere "apelo popular" mas, tanto pela sua composição formal como por apresentarem mecanismos narrativos a princípio "impenetráveis" (sobretudo, o realismo mágico de ...QUANDO TROVEJA), dificilmente se encaixam na lógica do filme dito comercial.


...QUANDO TROVEJA, a primeira longa-metragem concluída por Mozos, obra curiosa e modesta sobre a peculiar "dor de corno" de António (Miguel Guilherme), um lisboeta com apetência pela bebida, a partilhar residência com uma divorciada enferma e que ainda não recuperou de a ex-namorada o ter trocado por outro. Cenário desolador, sem dúvida, mas que não apela a fáceis e artificiais sentimentalismos, sobretudo pela presença do fantástico materializado nos dois seres habitantes de um bosque que, de vez em quando, provocam distúrbios na vida da ex-companheira de António. Uma história repleta de humor sobre corações partidos, solidões afogadas em imperiais, anjos da guarda com imperfeições físicas e um filme que merece, da parte dos espectadores portugueses, muita atenção.


XAVIER, película que conheceu uma longa gestação (12 anos!?) e que João Mário Grilo considerou estar «à descoberta de uma nova poética portuguesa», também aborda relações cortadas — neste caso, entre filho (Pedro Hestnes) e mãe (Isabel Ruth) — por circunstâncias mais fortes que os desejos das personagens e possui o brilho próprio de uma primeira obra onde persiste, indelevelmente, o amor profundo ao Cinema. Na sua simplicidade, revela-se emocional e cinematograficamente puro.


Todas as características (humanidade, inquietação, identidade portuguesa) acima enumeradas podem ser associadas ao documentário RUÍNAS (2009), terceiro filme exibido nesta retrospectiva. Trata-se de um olhar poético, saudosista e fragmentado sobre edificações que já conheceram melhores dias — casas abandonadas, sanatórios e hotéis desactivados, inclusivamente o "fantasma" do Parque Mayer —, confere-nos uma perspectiva diferente sobre o passado de Portugal, diferenciando-se de filmes semelhantes pela original narração que, através da leitura de correspondências, relatórios médicos ou receitas gastronómicas, invoca vivências, relações e costumes há muito perdidos. "Peca" por ter apenas sessenta minutos de duração...

Foram três dias de excelente Cinema Português — duvido que, a curto prazo, Ponta Delgada conheça oportunidade semelhante — e de reflexão acerca do trabalho de Manuel Mozos, um dos realizadores mais interessantes e, paradoxalmente, ignorados no panorama nacional.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

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