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10/05/2011

AURORA - O Dia Seguinte



Se AURORA revela-se obra cinematográfica pioneira, intemporal e multitextual, tal deve-se à feliz união entre a criatividade expressionista de F.W. Murnau, os muitos dólares que Hollywood lhe consagrou (é pena que tal acepção, hoje em dia, fosse vista como irremediavelmente negativa) e a abundância de cativantes motivos para espectadores de qualquer geração ou contexto cultural.



A narrativa de AURORA pode ser resumida em poucas linhas. Um jovem agricultor (George O'Brien) é seduzido por uma mulher imoral (Margaret Livingston), a qual convence-o a assassinar a sua esposa (Janet Gaynor, vencedora de um Óscar por este desempenho), vender a quinta e mudar-se para a cidade. O homem, contudo, não é capaz de levar o plano até ao fim, acabando por redescobrir o amor que sente pela esposa após uma breve mas marcante estadia no movimentado e imprevisível quotidiano citadino.

O que parece simples no papel torna-se extraordinário no grande ecrã pela mestria de F.W. Murnau. Representando um dos trabalhos mais sofisticados e tecnicamente brilhantes da era do cinema mudo, os dois directores de fotografia, Charles Rosher (o fotógrafo predilecto de Mary Pickford) e Karl Strauss, construíram um mundo visual que parece preso à sua época e, ao mesmo tempo, intemporal, através de inúmeras e surpreendentes perspectivas forçadas, dramáticos chiaroscuros, composições em matte e montagens ópticas registadas on camera. Os cenários apresentam-se igualmente magníficos, combinando bucólicas paisagens campestres com um fantástico desenho de arquitectura expressionista.



Para um filme produzido há mais de oitenta anos, a elevada reputação crítica de AURORA nunca desvaneceu. Tal sucede não só pela universalidade dos seus temas — as dualidades entre campo/cidade, noite/dia, vício/virtude, vida/morte, etc. — mas, sobretudo, pelo modo como esses assuntos fundem-se num conto moral capaz de materializar estados de espírito (note-se como o dilema do Homem em assassinar a esposa transforma-o num grotesco exemplo de ser humano) e incutir no espectador um sentimento compatível ao de "alma renovada".

Impõe-se conhecer AURORA. Tanto pelo estatuto que ocupa na História do Cinema — e que não se cinge apenas ao período que antecedeu o sonoro — como pela ressonância emocional que, decerto, encontra nas audiências modernas. Num mundo que se apresenta tão racional, muitos de nós só desejariam regressar à "ingenuidade" de dois camponeses numa cidade como a que Murnau aqui encena.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

3/29/2011

NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES: O Dia Seguinte



Ver NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES é assistir a um filme de vampiros quando esse género nem sequer existia. Pois esta é a história imaculada do Drácula antes de ser enterrada viva em lugares-comuns, paródias, anúncios de televisão, desenhos animados, cartoons e cerca de trinta outros filmes dedicados à personagem. Pois este filme revela-se maravilhado pelo material que adapta... Até parece feito por quem acreditava mesmo na existência de vampiros.

A interpretação de Max Schreck, no papel do vampiro, é exemplo perfeito disso, totalmente liberta dos toques teatrais que contaminariam as performances posteriores de Bela Lugosi, Christopher Lee, Frank Langella ou Gary Oldman. O seu vampiro surge como um ser afligido por uma maldição pavorosa e, fisicamente, quase despojado de qualquer semelhança humana.



Inspirado no romance de Bram Stoker, NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES marca uma das primeiras adaptações daquela figura sanguinária na Sétima Arte (o primeiro registo da sua aparição será, provavelmente, LE MANOIR DU DIABLE, de Méliès) e revelou-se extremamente influente não só nas versões subsequentes de Drácula — o conceito da sua morte através da exposição à luz solar, ausente no livro, foi aqui introduzido pela primeira vez — como em toda a história do filme de terror.

[Para além da versão assinada por Werner Herzog, em 1979, com o título NOSFERATU: PHANTOM DER NACHT, Francis Ford Coppola reaproveitou muita da sua imagética em DRÁCULA DE BRAM STOKER (1992) e originou A SOMBRA DO VAMPIRO (2000), um interessante e (infelizmente?) fictício relato da produção de NOSFERATU, no qual Max Schreck é um vampiro autêntico "recrutado" por Murnau com o intuito de conferir maior veracidade ao seu filme.]



Muito deste legado deve-se à visão de F.W. Murnau. A concepção estética claramente associada ao Expressionismo Alemão, cujos elementos primários estão aqui exibidos (um cenário urbano decadente, a pesada maquilhagem que reforça o chiaroscuro, sombras tão ou mais sinistras que os indivíduos que as formam — já em 1922, muitos defendiam que uma maior exibição da silhueta do Conde Orlock torna-lo-ia ainda mais ameaçador), aumenta o sentido metafórico aqui impresso. De entre as várias interpretações que o filme suscitou, ninguém fica indiferente à abordagem a assuntos que preocupam a Humanidade de todas as eras (doença, loucura, morte) e NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES sugere esses receios no seu próprio estilo visual: a bruma domina, as personagens espreitam ou acobardam-se, e é regra de composição que se cria maior tensão quando um sujeito é filmado fora do centro de um plano.

Será NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES um filme assustador na acepção moderna do termo? Para mim, de maneira nenhuma. Admiro-o mais pela sua atmosfera que, noventa anos depois, ainda possui a mesma capacidade de assombrar o espectador. Não nos mostra vampiros que surgem repentinamente das sombras, mas revela que o mal pode anunciar-se em qualquer molde, seja ele vivo ou morto.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflete apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

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