10/11/2011

SANGUE DO MEU SANGUE — O Dia Seguinte



Amores condenados, ego sádico no espírito de pequenos criminosos, disparidades familiares e a "puta de vida" da classe média-baixa em toda a sua rotina e todo o seu sofrimento confluem neste drama que consolida João Canijo como um formidável inovador na observação de hábitos e costumes lusos e, sem dúvida, o melhor contador de histórias no feminino do panorama nacional.



Sem expor um argumento inteiramente original (há muito de, por exemplo, Pedro Almodóvar e Mike Leigh na narrativa de SANGUE DO MEU SANGUE) nem desejando formular qualquer tipo de denúncia económico-social, Canijo aposta no realismo de cenários e personagens inserido na artificialidade de minuciosos planos-sequência e num espantoso trabalho de sonoplastia que, muitas vezes, apresenta ao espectador três situações — naquilo que não resisto em apelidar de "tridimensionalidade de som" — a decorrer, em simultâneo, na mesma meia dúzia de metros quadrados.

Este é o grande ponto forte de SANGUE DO MEU SANGUE. A colocação de diversas acções principais num segundo plano visual e sonoro está longe de se afigurar como mero exercício de estilo; avisa-nos, isso sim, dos segredos escondidos à superfície desta realidade que o argumento se encarregará de revelar. E, logo descobertos, a mise-en-scène transfigura-se completamente: de súbito, multiplicam-se os close-ups e as cenas filmadas com câmara ao ombro até à precipitação dos dois dramas cimeiros de SANGUE DO MEU SANGUE, ou para a semi-tragédia ou na opção pela manutenção de uma qualidade de vida que, embora arredada do ideal, não se deseja pior.



SANGUE DO MEU SANGUE pertence, brilhante e irremediavelmente, às suas actrizes: impecáveis Rita Blanco (numa versão emancipada da sua Margarida Lopes na série televisiva CONTA-ME COMO FOI), Anabela Moreira e Cleia Almeida, sem temor do reconhecimento de culpa nem da humilhação perante um elenco masculino muito eficaz na composição de homens com "h" pequeno...

É o melhor filme português estreado em 2011 — e pelo contexto temporal, dificilmente será destronado de tal estatuto. Se é "obra-prima" ou "o filme que reconciliará o público português com o o seu Cinema", só o tempo o dirá. Mas, pessoalmente, espero que o veredicto seja positivo. Obrigatório.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

10/05/2011

AURORA - O Dia Seguinte



Se AURORA revela-se obra cinematográfica pioneira, intemporal e multitextual, tal deve-se à feliz união entre a criatividade expressionista de F.W. Murnau, os muitos dólares que Hollywood lhe consagrou (é pena que tal acepção, hoje em dia, fosse vista como irremediavelmente negativa) e a abundância de cativantes motivos para espectadores de qualquer geração ou contexto cultural.



A narrativa de AURORA pode ser resumida em poucas linhas. Um jovem agricultor (George O'Brien) é seduzido por uma mulher imoral (Margaret Livingston), a qual convence-o a assassinar a sua esposa (Janet Gaynor, vencedora de um Óscar por este desempenho), vender a quinta e mudar-se para a cidade. O homem, contudo, não é capaz de levar o plano até ao fim, acabando por redescobrir o amor que sente pela esposa após uma breve mas marcante estadia no movimentado e imprevisível quotidiano citadino.

O que parece simples no papel torna-se extraordinário no grande ecrã pela mestria de F.W. Murnau. Representando um dos trabalhos mais sofisticados e tecnicamente brilhantes da era do cinema mudo, os dois directores de fotografia, Charles Rosher (o fotógrafo predilecto de Mary Pickford) e Karl Strauss, construíram um mundo visual que parece preso à sua época e, ao mesmo tempo, intemporal, através de inúmeras e surpreendentes perspectivas forçadas, dramáticos chiaroscuros, composições em matte e montagens ópticas registadas on camera. Os cenários apresentam-se igualmente magníficos, combinando bucólicas paisagens campestres com um fantástico desenho de arquitectura expressionista.



Para um filme produzido há mais de oitenta anos, a elevada reputação crítica de AURORA nunca desvaneceu. Tal sucede não só pela universalidade dos seus temas — as dualidades entre campo/cidade, noite/dia, vício/virtude, vida/morte, etc. — mas, sobretudo, pelo modo como esses assuntos fundem-se num conto moral capaz de materializar estados de espírito (note-se como o dilema do Homem em assassinar a esposa transforma-o num grotesco exemplo de ser humano) e incutir no espectador um sentimento compatível ao de "alma renovada".

Impõe-se conhecer AURORA. Tanto pelo estatuto que ocupa na História do Cinema — e que não se cinge apenas ao período que antecedeu o sonoro — como pela ressonância emocional que, decerto, encontra nas audiências modernas. Num mundo que se apresenta tão racional, muitos de nós só desejariam regressar à "ingenuidade" de dois camponeses numa cidade como a que Murnau aqui encena.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

9/19/2011

SESSÕES 99 E 100

MISTÉRIOS DE LISBOA (2010), de Raúl Ruiz


Uma condessa roída pelo ciúme e sedenta de vingança: um aristocrata libertino que se torna padre justiceiro transformando-o ora em cigano, ora em poeta romântico; um pirata sanguinário tornado próspero homem de negócios; uma vendedora de bacalhau que mata o amante e vende os encantos da própria filha, antes de se tornar santa, atravessam a história do séc. XIX e a procura de identidade do nosso personagem.

Uma história repleta de paixões, duelos, perigos mortais e negócios tenebrosos numa atribulada viagem por Portugal, França, Itália e Brasil.



Hoje e amanhã, pelas 21h30, por ocasião da 100ª sessão do 9500 Cineclube, no Cine Solmar.

9/13/2011

CANINO - O Dia Seguinte


Utópico, surreal e devastador de um modo pouco usual na Sétima Arte contemporânea, CANINO é o porta-estandarte daquilo que alguns já apelidam de Novo Cinema Grego (sobre o conceito e respectivas influências e efeitos, recomenda-se a leitura deste artigo do Guardian) e, para muitos cinéfilos, a experiência mais radical vivida numa sala de cinema nos últimos tempos.

A narrativa da protecção extrema de um casal aos seus filhos – duas raparigas e um rapaz, cujos nomes permanecerão desconhecidos até ao fim –, praticamente adultos mas infantilizados por uma singular educação doméstica que envolve definir "zombie" como sendo uma pequena flor amarela ou a explicação de que os gatos são os animais mais perigosos do planeta, revela-se material propício para variadas interpretações. Desde uma reinvenção da Alegoria da Caverna até à materialização cinematográfica da actual crise económica da Grécia, todas as assumpções mostram-se válidas e plenas de impressionante fundamento.



Contudo, permanecerá sempre a ideia de que algo ficou por compreender em CANINO – e o seu final ambíguo favorece tal sentimento. Da minha parte, e após a segunda visualização proporcionada pelo 9500 Cineclube, cresce a ideia de que Giorgios Lanthimos concebe uma fabulosa metáfora sobre a necessidade do livre-arbítrio no ser humano, cujas escolhas deverão ser sempre guiadas pela correcta distinção do bem e do mal. Tal capacidade é negada aos jovens protagonistas através da estranha experiência behaviorista dos seus pais, a qual desenrola-se cínica e vagarosamente perante os nossos olhos e conhecerá uma rebeldia quase ingénua por intermédio da filha mais velha com consequências mais imprevisíveis do que trágicas.

Nenhum espectador conseguirá libertar-se facilmente desta obscura e sofisticada "prisão" temática, potenciada por um formalismo composto de sedutores e estáticos enquadramentos e iluminação transparente e difusa que ajudam à criação de uma atmosfera etérea, infundida de humor negro e da ocasional sequência-choque mas que nunca se afasta dos seus elementos nominais.



Talvez este texto se apresente quase insondável junto de quem nunca viu CANINO, mas este é um daqueles objectos cinematográficos que merece a invenção de todo um novo vocabulário. Por isso, o melhor será mesmo ver para compreender.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

8/22/2011

SESSÃO 94

::: CICLO HISTÓRIA DO CINEMA :::

FREAKS: PARADA DE MONSTROS (1932), de Tod Browning


(...)
A simples sinopse "não faz justiça a este filme alarmante, porém profundo, que é mesmo preciso ver para crer. Uma raridade (um mostro?) do cinema mundial, considerado por muitos como o filme mais notável na carreira de um realizador, cujos trabalhos incluem a versão original de Drácula (1931)"

in 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer.

SINOPSE: O filme mais bizarro da história do cinema? Provavelmente, e foi rodado no coração da indústria de Hollywood, nos anos 30. Chama-se FREAKS e freaks (autênticos) são a maioria dos seus actores. É uma história de paixões e vinganças, e de diferenças (umas mais inconciliáveis do que outras); mas é sobretudo uma das manifestações supremas da tortuosa visão do mundo de Tod Browning.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

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