9/19/2011

SESSÕES 99 E 100

MISTÉRIOS DE LISBOA (2010), de Raúl Ruiz


Uma condessa roída pelo ciúme e sedenta de vingança: um aristocrata libertino que se torna padre justiceiro transformando-o ora em cigano, ora em poeta romântico; um pirata sanguinário tornado próspero homem de negócios; uma vendedora de bacalhau que mata o amante e vende os encantos da própria filha, antes de se tornar santa, atravessam a história do séc. XIX e a procura de identidade do nosso personagem.

Uma história repleta de paixões, duelos, perigos mortais e negócios tenebrosos numa atribulada viagem por Portugal, França, Itália e Brasil.



Hoje e amanhã, pelas 21h30, por ocasião da 100ª sessão do 9500 Cineclube, no Cine Solmar.

9/13/2011

CANINO - O Dia Seguinte


Utópico, surreal e devastador de um modo pouco usual na Sétima Arte contemporânea, CANINO é o porta-estandarte daquilo que alguns já apelidam de Novo Cinema Grego (sobre o conceito e respectivas influências e efeitos, recomenda-se a leitura deste artigo do Guardian) e, para muitos cinéfilos, a experiência mais radical vivida numa sala de cinema nos últimos tempos.

A narrativa da protecção extrema de um casal aos seus filhos – duas raparigas e um rapaz, cujos nomes permanecerão desconhecidos até ao fim –, praticamente adultos mas infantilizados por uma singular educação doméstica que envolve definir "zombie" como sendo uma pequena flor amarela ou a explicação de que os gatos são os animais mais perigosos do planeta, revela-se material propício para variadas interpretações. Desde uma reinvenção da Alegoria da Caverna até à materialização cinematográfica da actual crise económica da Grécia, todas as assumpções mostram-se válidas e plenas de impressionante fundamento.



Contudo, permanecerá sempre a ideia de que algo ficou por compreender em CANINO – e o seu final ambíguo favorece tal sentimento. Da minha parte, e após a segunda visualização proporcionada pelo 9500 Cineclube, cresce a ideia de que Giorgios Lanthimos concebe uma fabulosa metáfora sobre a necessidade do livre-arbítrio no ser humano, cujas escolhas deverão ser sempre guiadas pela correcta distinção do bem e do mal. Tal capacidade é negada aos jovens protagonistas através da estranha experiência behaviorista dos seus pais, a qual desenrola-se cínica e vagarosamente perante os nossos olhos e conhecerá uma rebeldia quase ingénua por intermédio da filha mais velha com consequências mais imprevisíveis do que trágicas.

Nenhum espectador conseguirá libertar-se facilmente desta obscura e sofisticada "prisão" temática, potenciada por um formalismo composto de sedutores e estáticos enquadramentos e iluminação transparente e difusa que ajudam à criação de uma atmosfera etérea, infundida de humor negro e da ocasional sequência-choque mas que nunca se afasta dos seus elementos nominais.



Talvez este texto se apresente quase insondável junto de quem nunca viu CANINO, mas este é um daqueles objectos cinematográficos que merece a invenção de todo um novo vocabulário. Por isso, o melhor será mesmo ver para compreender.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflecte apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

8/22/2011

SESSÃO 94

::: CICLO HISTÓRIA DO CINEMA :::

FREAKS: PARADA DE MONSTROS (1932), de Tod Browning


(...)
A simples sinopse "não faz justiça a este filme alarmante, porém profundo, que é mesmo preciso ver para crer. Uma raridade (um mostro?) do cinema mundial, considerado por muitos como o filme mais notável na carreira de um realizador, cujos trabalhos incluem a versão original de Drácula (1931)"

in 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer.

SINOPSE: O filme mais bizarro da história do cinema? Provavelmente, e foi rodado no coração da indústria de Hollywood, nos anos 30. Chama-se FREAKS e freaks (autênticos) são a maioria dos seus actores. É uma história de paixões e vinganças, e de diferenças (umas mais inconciliáveis do que outras); mas é sobretudo uma das manifestações supremas da tortuosa visão do mundo de Tod Browning.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

7/27/2011

SESSÃO 90

::: SESSÃO ESPECIAL :::

A FELICIDADE (1934), de Aleksandr Medvedkin


[sessão acompanhada ao vivo pelo agrupamento de improvisação livre constituído por Ernesto Rodrigues (viola de arco), Gianna de Toni (contrabaixo), Luís Couto (Guitarra eléctrica), Ricardo Reis (percussão) e Biaggio Volandri (objectos amplificados).]

FELICIDADE é um conto tradicional russo estilizado acerca do pobre e preguiçoso camponês Khmyr, que sonha ser czar enquanto come a sua ração de toucinho e não faz nada — a sua ideia de felicidade — e da sua laboriosa mulher Anna que encontra a felicidade com a Revolução, trabalhando numa quinta colectiva.

Visualmente muito inventivo, o filme contém cenários desenhados a partir de gravuras populares russas, cenas cómicas e pormenores dos "sonhos" e "repastos reais" de Khmyr, a quem as autoridades apenas dão atenção quando este, abusado e enganado por padres, mercadores e cobradores de impostos, se tenta matar: "Se o camponês morre, quem alimentará a Rússia?"



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

7/25/2011

SESSÃO 89

::: DOCUMENTÁRIOS COM ARTE :::

ANTÓNIO SENA: A MÃO ESQUIVA (2009), de Jorge Silva Melo


António Sena expõe desde 1964. Pintor discreto e esquivo, é autor de uma das obras mais consistentes da arte portuguesa contemporânea.

Serralves realizou em 2003 uma extraordinária exposição-retrospectiva de António Sena.

Eu não o conhecia pessoalmente, nunca o vira; mas conhecia-lhe grande parte da obra discreta, intensa, original.

Sentados à mesma mesa na noite do jantar da inauguração surgiu a ideia de virmos a fazer um documentário sobre o seu trabalho: não um documentário exaustivo, histórico, retrospectivo, mas uma maneira de ver a transformação das formas no tempo.
E fomos filmando: entre 2003 e 2009, na preparação da exposição "
Books=Cahiers" que inaugurou na Fundação Vieira da Silva em Julho de 2009.

O que me interessou foi filmar-lhe "a incessante mão", a mão que escrevinha, rasura, escreve, acrescenta, pinta e apaga ou pinta e inscreve.

Ou a mão que comenta, sublinha, se lembra.

A mão de Maria Filomena Molder que pensa.
Incessantemente.

Para "salvar a biblioteca do incêndio", na bela formulação de João Lima Pinharanda.


Jorge Silva Melo

Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

7/19/2011

SESSÃO 88

::: FILMES CURTOS E LONGAS CONVERSAS — 3 CURTAS DE SAGUENAIL :::

. ANTES DE AMANHÃ (2001): Antes de Amanhã, tão-só o pequeno abismo de uma noite. Os corpos, sempre outros, buscam o lugar que lhes resta, depois de varridos pelo verbo asfixiante das imagens.
Talvez amanhã não seja apenas mais um dia.

. MAU DIA (2006): Num "café algures", a história parte de "uma mulher silenciosa" que se encontra "frente a um homem que não diz palavra, cujo rosto endurecido lhe devolve a mágoa como um espelho de carne". Neste ambiente, onde "só o céu derrama ininterruptas lágrimas", gira "um esboço de canção de amores desavindos e moribundos que não consegue encontrar a sua melodia". De repente, o homem "eclipsa-se" e a mulher "fica só, como porventura nunca deixou de estar".
Para esta curta-metragem, "produto da sua imortal doença", contou com "os seus cúmplices" João Alves, Ana Deus e Becas.

. PAS PERDU (2008): Noite cerrada. Numa cidade algures, uma mulher errante, agrilhoada a uma mala. Parece procurar alguma coisa. Parece andar fugida de alguém. Mas as paredes têm olhos e a noite tem bocas. E becos sem saída...

Com a presença de Saguenail e Regina Guimarães.

Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

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