5/10/2011

A BOCETA DE PANDORA — O Dia Seguinte


Um autêntico «filme freudiano» — se tal género existisse, este título situar-se-ia entre os exemplos obrigatórios para a sua compreensão —, G.W. Pabst regista o percurso de Lulu (Louise Brooks), um ser absolutamente sexual que oscila entre o passivo objecto de desejo e a activa sedutora com plena confiança dos seus instintos, para ilustrar os conceitos da Psicanálise que nos finais dos anos 20, sobretudo através do Surrealismo, começaram a dominar e influenciar variadas manifestações artísticas (no Cinema, um ano antes, Man Ray realizara L’ÉTOILE DE MER e, em 1929, Buñuel escandalizava Paris com UN CHIEN ANDALOU).

Contextos históricos e artísticos à parte, A BOCETA DE PANDORA disseca as inconsciências de amor, luxúria, traição, inveja e homicídio, centrando-se, de forma consciente, nos podres e baixios das relações humanas. Para tal, temos a referida protagonista como catalisadora da libido masculina em todas as suas expressões: Ludwig Schön, o ilustre editor de um jornal, deixa-se seduzir e arruinar, social e fisicamente, por Lulu; o filho dele, Alwa, não é capaz de esconder o amor que sente pela antiga amante do pai e foge com ela para também enfrentar um destino infeliz; a Condessa Geschwitz — segundo alguns autores, "a primeira personagem assumidamente lésbica" da Sétima Arte — dança apaixonadamente com Lulu e ignora a sua auto-estima para lhe demonstrar a sua atracção; e até Jack, O Estripador hesitará na sua presença, antes de agarrar na faca e cometer o género de crimes pelos quais se notabilizou.



Em A BOCETA DE PANDORA, é clara a associação entre sexo e morte, seja ela literal ou metafórica, que o argumento subentende. Este facto, para além de (novamente) invocar os escritos de Freud, justifica o apelo ao mito grego da caixa que, depois de aberta, soltaria todos os males do mundo para caracterizar a protagonista, pois é devido ao seu comportamento "afoito" e ambíguo que a tragédia toma conta do filme. Mas, na História do Cinema, estamos perante uma femme fatale muito peculiar: embora exiba todos os traços dessa personagem-tipo, Lulu é-o mais por acidente do que por determinação, circunstância que levará não só à devastação daqueles que a rodeiam como também à sua própria morte.

[Existem aqui outras e inúmeras personificações de conceitos psicanalíticos que, por si só, dariam um texto muito exaustivo. Contudo, não resisto a realçar aquele casino de "devassos costumes" no interior mais recôndito do barco onde Lulu e Alwa se refugiam, como uma genial analogia ao id ou, segundo Freud, a zona da psique humana onde a moral e as regras da sociedade não encontram lugar e situado nas "profundezas" do cérebro.]



O mérito dessa caracterização tem o nome de Louise Brooks, actriz americana sobre a qual Henri Langlois, o histórico director da Cinemateca Francesa, escreveu que "ninguém poderá esquecê-la depois de a ver" e que G.W. Pabst resgatou de uma condenada carreira nos Estados Unidos. Com o seu aspecto de coquette infantil mas munida de sorriso irresistivelmente lascivo e método de interpretação extremamente actual, Brooks continua a deixar marca indelével nos espectadores, sobrepondo-se aos dominantes chiaroscuro e expressionismo formal que A BOCETA DE PANDORA, enquanto produção alemã dos anos 20, inevitavelmente exibe.

Na sua data de estreia, foi completamente arrasado pela crítica. Hoje, trata-se de um clássico obrigatório, com um ícone do cinema mundial à frente do elenco, e digno de acolhimento público.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflete apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

5/09/2011

SESSÃO 66

::: CICLO HISTÓRIA DO CINEMA :::

A BOCETA DE PANDORA, de G. W. Pabst



A bela e sensual Lulu (Louise Brooks) é amante de Peter Schön (Fritz Kortner), um viúvo rico. Quando este lhe anuncia que se vai casar com uma mulher respeitável, Lulu mantém-se imperturbável, mas começa desde logo a fazer planos para destruir esse noivado. Lulu acaba por conseguir o que quer, mas o casamento com Schön abre caminho para uma descida aos infernos, não havendo, para um como para outro, qualquer hipótese de redenção.

A BOCETA DE PANDORA é uma das obras-primas da Sétima Arte, tendo imortalizado a actriz Louise Brooks e o realizador austríaco Georg Willhelm Pabst como estrelas maiores do cinema mudo.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

5/03/2011

A CIDADE DOS MORTOS — O Dia Seguinte


Não é difícil apelidar o registo filmado do quotidiano de uma “cidade” que se formou no interior de uma necrópole do Cairo como irresistível. E o realizador não esconde o seu fascínio por este microcosmos onde, como em qualquer urbe dita vulgar, as pessoas amam, rezam, consomem, aspiram, discutem, brincam e, numa circunstância inevitavelmente derivada do seu contexto geográfico, planeiam a construção do próprio túmulo.

Esse mesmo fascínio é partilhado com o espectador pelos testemunhos e convivência diária dos habitantes da Cidade dos Mortos captados pela câmara de Sérgio Tréfaut, através da exibição de uma série de situações que oscilam entre o enternecimento, o inusitado e o burlesco — o teatro de fantoches que “chega à cidade” ou as tácticas de engate engendradas por três jovens egípcios constituem os melhores desses momentos — sem a ambição de observação social nem de traçar perfis desses indivíduos.



Contudo, na brevidade dos seus 60 minutos de metragem, permanece a impressão de existir ainda muito por contar sobre um local que se estende por mais de dez quilómetros e ao qual Tréfaut dedicou cinco anos de trabalho. A CIDADE DOS MORTOS acicata a nossa curiosidade, mas não se revela como filme de promoção turística. Deseja-se apreciar o que mais esconde esta peculiar localidade, quantas outras histórias pululam entre os que optaram, ou se viram forçados, a experimentar a vida lado a lado com os túmulos de desconhecidos.

Apesar desse défice de contextualização e detalhe, encoraja-se a sua visualização. É certo que ninguém sairá desiludido.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflete apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

5/02/2011

SESSÃO 65

::: ESTREIA :::

A CIDADE DOS MORTOS, de Sérgio Trefaut


A Cidade dos Mortos, no Cairo, é a maior necrópole do mundo.
Um milhão de pessoas vivem dentro do cemitério — em casas tumulares ou nos edifícios que cresceram em redor. Dentro do cemitério há de tudo: padarias, cafés, escolas para as crianças, teatros de fantoches...

A Cidade dos Mortos estende-se por mais de dez quilómetros ao longo de uma auto-estrada, mas não deixa de ser uma aldeia, com mães à caça de um bom partido para as filhas, rapazes a correr atrás das raparigas, disputas entre vizinhos.

Preparado e rodado ao longo de cinco anos (2004-2009), este filme procura dar a ver a alma invisível do cemitério.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

4/26/2011

48 — O Dia Seguinte


Durante 96 minutos, as fotografias de quem foi detido, interrogado, torturado, humilhado e marcado para toda a vida pela PIDE durante 48 anos de ditadura salazarista (daí o título do filme), dominadas por expressões de ansiedade e sofrimento em rostos amedrontados e enrugados, ocupam o ecrã acompanhados da descrição dos próprios retratados, em trémulos voz-off, que invocam memórias traumáticas do que viveram entre as instalações da Rua António Maria Cardoso e a prisão de Caxias.

Se a composição formal de 48 parece escassa em cinema, é porque a sua visualização proporciona uma experiência mais psicológica do que sensorial. A associação das vozes às fotografias estimula não só a nossa capacidade de interpretação pessoal como também um certo poder de sugestão (embora alguns dos testemunhos sejam inegavelmente explícitos) para a compreensão das emoções de cada entrevistado. Todavia, se o Cinema é, por excelência, a arte de envolver o espectador, então 48 será das obras portuguesas mais cinematográficas de 2011...

Espera-se realmente que seja, igualmente, um filme que acorde consciências relativamente ao nosso passado recente, do qual este ainda parece ser assunto desconfortável para a sociedade portuguesa contemporânea. Se a pormenorização das actividades levadas a cabo pela PIDE continua a ser sonegada nas aulas de História, Susana de Sousa Dias acaba de simplificar a tarefa com um registo documental sincero e inequívoco acerca dessa intenção.

Samuel Andrade.

Nota: este texto reflete apenas a opinião do autor, não representando a visão geral do 9500 Cineclube.

4/25/2011

SESSÃO 64

::: ESTREIA :::

48, de Susana de Sousa Dias


O que pode uma fotografia de um rosto revelar sobre um sistema político?
O que pode uma imagem tirada há mais de 35 anos dizer sobre a nossa actualidade?
Partindo de um núcleo de fotografias de cadastro de prisioneiros políticos da ditadura portuguesa (1926-1974), 48 procura mostrar os mecanismos através dos quais um sistema autoritário se tentou auto-perpetuar.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar

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